Sobre testemunhar o desfalecer de uma geração
Sofrem as palavras que tentam confinar a morte em um acúmulo de letras sustentadas pela compreensão. Sofrem minguadas, enlutando um corpo invadido pelos riscos do tempo.
Não!
Resistem as palavras que tentam confiar à morte um acúmulo de letras sustentadas pela incompreensão. Resistem porque não cessam de imortalizar um corpo que jaz farinado pelos riscos do tempo. Deixem o corpo farinar em paz! Mas não esqueçam: suas palavras, elas resistem...
Desfaleçam as palavras desse morto! Tragam de volta aos sentidos de seus muitos amores e mantenham as palavras ali, insistentes, pretensiosas, ávidas por uma memória, depois outra e mais uma. Palavras des-falecidas. Des-fale-ser!
Estou testemunhando o desfalecimento de uma geração de analistas que dedicaram suas vidas ao primeiro campo lacaniano no Brasil. Quando tenho notícias de um des-falecer, me coloco a pensar na palavra. Na palavra persiste uma tentativa de encapsular a vida para além do corpo. A palavra não falece. Ditas em cada ensaio memorialístico; transcritas em cada depoimento; escritas em cada página. Palavras que, juntas, se tornam um arquivo daquele ser que um dia não estará mais vivo.
A história do movimento psicanalítico sempre ficou à mercê de um controle sobre o arquivo da memória. Sob esse controle, omitiu-se a história de mulheres, desafetos políticos, teóricos e muitos nomes que dariam maior integridade ao campo psicanalítico. Aos que subjazem apenas nos arquivos já produzidos sob este controle, resta-nos subverter, hoje, o arquivo de memórias seletivas e interpretações delirantes desse material.
Atualmente, a produção do arquivo vige sob um regime memorial mais democrático. Por outro lado, se tornou condicionado a quem se dispõe a registrar a memória. Um brinde aos historiadores da psicanálise, mas isso não facilita o trabalho. Quando a memória se perde em uma disputa de histórias e imagens produzidas por outro delírio, a Inteligência Artificial, o desafio sobre o arquivo aumenta. Semana passada, me deparei com uma foto que emulava a estética dos anos 80, mostrando um Lacan que jamais existiu.
Para garantir a verdade não-toda de um arquivo, precisaremos estar atentos e desejantes por restituir o devido peso da memória. Memória daqueles que resistem entre nós em seus últimos intervalos de vida, nos fazendo testemunhar os efeitos do real sobre seus corpos: a dificuldade de novas palavras, a repetição de antigas histórias, a morte. Uma, duas, três, as histórias serão repetidas muitas vezes e é bom estar aqui para ouvi-las. As mortes, essas também virão repetidas vezes. Retomo a etimologia do desfalecimento. Não aquela que nega a morte, mas que a inverte pela palavra.




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