Contra o eurocentrismo, em defesa de Marx com Lacan
- 17 de jun.
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Este texto é um diálogo com Pedro Alcântara, que publicou Contra o eurocentrismo, em defesa de Marx, pelo blog da Boitempo.
Quando localizamos a razão científica no escopo de um eurocentrismo, é prudente estarmos advertidos de que a criação da Europa é um episódio recente na história da filosofia, mesmo se considerarmos a Europa de Carlos Magno no Séc. VIII. Assim como Pedro alerta, a razão científica passou e passa por uma disputa, de forma que o eurocentrismo nos ajuda a localizar uma determinada referência possível, sendo um dos produtos deste acúmulo histórico. Isso não deve anular o problema estrutural: a maioria de seus pensadores, eurocentrados ou não, se apropriaram deste acúmulo histórico para intensificar - e não superar - os problemas que herdaram. Ou melhor, em qualquer época, a razão científica forneceu ainda mais instrumentos para a manutenção de um discurso hegemônico que, olhando em retrospecto, possui uma característica que insiste: ser o discurso do homem.
Comecemos na antiguidade oriental mesopotâmica, cujo código de Hamurabi permitia que o marido vendesse sua esposa e filhos para pagar dívidas. No recorte de classe, foi ali que o ‘olho por olho’ era aplicado apenas em desfavor dos escravizados. Quando um cidadão livre cometia um crime contra um escravizado, no máximo pagava uma multa ao proprietário deste. Ou mesmo no período hebraico, momento em que a mulher era tida como uma derivação da matéria principal, o homem, e cujo mito remontava um decreto divino para sua dominação. O desejo da mulher estava para o homem. Na antiguidade clássica, o problema continua. A racionalidade apontava uma ideia de universalidade que excluía aqueles que eram tidos como incapazes de uma razão deliberativa e, novamente, os mesmos grupos eram subalternizados.
Ao passo que a racionalidade dos helenos não equiparava mais a mulher e o escravizado, motivo pelo qual Aristóteles justificava a dominação dos bárbaros, esse também era o povo que afirmava que o homem precisa, antes de tudo, da casa, e depois a mulher e o boi lavrador. É o mesmo período em que a razão científica permitia fundamentar que o frio derrotava o sêmen no forno do útero e, por isso, nascia a mulher como uma deformidade causada pela ausência de calor.
A lógica insiste durante os séculos até Descartes, que alça o problema da razão científica sem perceber que seu cógito está comprometido de partida, mesmo sem reproduzir diretamente a misoginia de seus antecessores. Isso porque a divisão sexual do trabalho estava ali às claras por ocasião da troca de cartas com a princesa Elizabeth, momento em que ela confessa não conseguir aplicar o método cartesiano devido ao trabalho doméstico. Estejamos atentos para não tornar esta articulação uma saída anacrônica, trazendo à luz o problema de sua época. Este problema se presentifica quando se lembra que a res cogitans e a res extensa são pensadas no esteio de uma tensão das categorias jurídica, política, religiosa e filosófica acerca da mulher. Esta tensão era fruto da representação de um papel social: a mulher é o corpo, o sentimento. O Homem da Razão cartesiana deve transcender às emoções, uma característica lida como feminina, para aceder à razão. Trata-se, portanto, de um arcabouço fundado sobre uma estrutura que descarta tudo o que simbolicamente está associado ao feminino. Há filósofas pensando sobre isso, como a Lloyd.
A situação não muda no século das luzes, uma vez que o belo e o sublime kantianos se estruturam na distinção dos sexos. Certo de que não há uma hierarquia entre o belo sexo, a mulher, e o sexo sublime, o homem, algo ainda passa ininteligível a ponto de afirmar que a mulher estudante de grego ou mecânica só pode mesmo lhe faltar uma barba, “pois com essa talvez consigam exprimir melhor o grau de profundidade a que aspiram” (Kant, 1993, pag. 48-49).
A moral kantiana também foi construída, portanto, sobre um sujeito previamente masculino. Fica patente que a mão que escreve a sua razão científica é influenciada e influencia as categorias aos quais está imersa, sendo impossível não a encarar como produto desta contingência nas diversas esferas.
A leitura que acha ser possível separar seus acertos e erros, se coloca como Édipo frente à Esfinge. Na chance de olharmos a própria história para respondermos que o modelo de razão científica herdado é problemático por colocar a verdade como consequência última e não como causa de desejo, caminhamos rumo à nossa cegueira. Continuamos preferindo a resposta universal, o Homem, sem perceber que esta categoria é o pecado original da filosofia. Sempre foi na preferência ao Homem que o homem concretizou seus privilégios.
Será possível superar esse problema se admitirmos que o modelo da razão científica precisa ser radicalizado? Considero que Freud iniciou uma possibilidade que tirou o cógito de seu lugar cristalizado. Se a razão científica fosse uma foto antiga, Freud decidiu trabalhar com seu negativo. Não por acaso revolucionou justamente a partir da escuta feminina, embora tenha deixado um por vir necessário, pois esta subversão não se dá pela rejeição do sujeito cartesiano. A subversão começa ao apontar a existência da razão inconsciente.
Fanon tenta em duas frentes. Primeiro, afirma que vai deixar o método para os botânicos e matemáticos, apresentando Pele Negra, máscaras brancas (1940) como um estudo clínico. Segundo, o faz pela perspectiva psicanalítica. No entanto, como mais um na série, fala apenas para os homens, mas os homens negros antilhanos. No máximo, os colonizados. Ao passo que isso implica a ausência da mulher negra, também é a admissão de que seu objeto de estudo é o homem-negro-antilhano. Há algo herdado deste acúmulo da razão científica, sem dúvida, mas a radicalidade está no horizonte.
Lacan insiste. Propor modalidades de gozo masculino e feminino desvinculados do sexo biológico é uma cisão importante, ainda que mantenha a referência ao falo como herança deste mesmo acúmulo histórico da filosofia. Isso significa que qualquer ser pode figurar nessa forma binária de gozo, sendo este binarismo uma saída mais descritiva do que uma resposta resolutiva do problema desta herança. Esse binarismo não diz respeito ao sexo ou ao gênero, mas aponta para a posição do sujeito nas suas relações como, por exemplo, a ciência da razão.
Luce Irigaray escreveu um texto chamado A “mecânica” dos fluidos, onde chama atenção para o fato de que a tradição filosófica foi construída sobre formas fixas, categorias, sistemas fechados e universalidade. Para ela, o sujeito moderno é sólido e incapaz de considerar o fluido. Por isso, também é incapaz de escutar o feminino. Ela advoga por uma subversão feminina da ciência da razão, que não está referida ao sexo ou ao gênero, ainda que sua construção se sirva do discurso que aqui identificamos como discurso do homem.
Longe de pretender responder o todo dessa subversão, trago aqui apenas um fluxo desta possibilidade. Este fluxo pode alcançar uma preamar interessante com a crítica que Lacan faz ao materialismo histórico-dialético. Primeiro, diz que a psicanálise não tem o menor direito de interpretar a prática revolucionária, sendo esta posição uma resposta a quem o convocara a uma explicação da luta de classes. Isso porque a psicanálise trata dos efeitos do capitalismo e da revolução no sujeito dividido. No entanto, afirma que faria bem à teoria revolucionária colocar em questão o materialismo no que diz respeito a função da verdade como causa. É uma espécie de alerta para que o materialismo não caia na cilada da razão científica, aquela que tem como finalidade achar a verdade e, ao se deparar com esta impossibilidade, a entrega sua garantia ao Deus cartesiano, ao Deus da ciência.
Dessa forma, o arcabouço do materialismo possui um ponto de ausência, que é o objeto a lacaniano, este que as contradições objetivas resolvidas pelo materialismo não dão conta. Como proposta, Lacan relembra que as quatro causas aristotélicas servem para esta advertência. Elas não são métodos para encontrar a verdade no sentido cartesiano, mas são procedimentos amparados pela ontologia, pelo modo de explicar o ser, principalmente no que diz respeito à causa formal, isto é, à forma simbólica que estrutura o sujeito. É a partir disso que Althusser, por exemplo, empreende sua reconciliação entre a psicanálise e o marxismo. É neste ponto que essas duas disciplinas dialogam para que o marxismo possa relançar novos rumos para a revolução.
Ponto interessante Pedro ter lembrado que o materialismo é acusado de pseudociência, afinal, o capitalismo é o produto desta razão científica e o marxismo denuncia sua irracionalidade na medida em que esta razão científica serve à dominação, a mesma que vimos ser ponto constante em todos os períodos históricos. Quem domina, aliás, não admite uma teoria que revela a estrutura da dominação, e tanto a psicanálise quanto o marxismo revelam isso, cada qual a sua maneira. Não por acaso, uma das tentativas de aniquilação dessas epistemologias usa essa razão científica para tal finalidade. Se o enquadre ao discurso científico hegemônico nos demandar a denegação de sua estrutura, aceitamos a excomunhão.



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