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Pensamentos arbítrios #5

  • 16 de mar.
  • 4 min de leitura

A responsabilidade da sua curtida, psicanalista

Uma curtida desatenta pode nos fazer engajar uma leitura desonesta nas redes sociais. Alguns casos utilizam uma meia-verdade para manipular o interlocutor com um argumento plausível na primeira camada, mas que o cinismo não resiste ao protocolo básico contra fake news. Outros, iniciam a leitura com uma pauta que você concorda para, no final, entregar um argumento excludente de outra. O ponto comum é que todos os casos utilizam o espantalho do identitarismo contra minorias sociais. Cito dois casos.


Caso Vaneska Zanello

Boas pessoas e profissionais também erram. Assim como minha crítica ao Douglas Barros, há casos em que a opinião inclui uma afirmação factualmente errada, mas ainda assim é uma vírgula na trajetória que não deve causar nada além da crítica pontual. O caso da Vaneska talvez seja um desses casos, mas eu não a conheço. Sua leitura sobre a Erika Hilton na presidência da comissão da mulher inicia com a proposta ética feminista e termina vinculando Erika à agressividade, imputando um xingamento que nunca aconteceu e inferindo que outras parlamentares foram preteridas no processo da presidência. Fato é que a chapa da Erika foi a única a se inscrever, sendo uma manipulação retórica que não se prestou à pesquisa básica; Sua firmeza e ética foram interpretadas como agressividade, sendo possível considerar a reprodução de um marcador étnico nessa característica; e afirma que a parlamentar chamou mulheres de cadela e esgoto, quando seu texto é dirigido aos transfóbicos, no masculino, e finaliza dizendo que estes podem latir. Não há sequer a palavra cadela, mas uma sucessão de interpretações desonestas.


Caso Sávio

Todo vídeo do Sávio Di Maio é muito envolvente, mas uma boa retórica não é garantia ética e, até agora, a equação "Se Sávio está de um lado, estou do outro" ainda não falhou. O modo operante da sua retórica inicia com uma informação verdadeira, distorcendo a verdade até o ponto de virar uma projeção ficcional contra minorias sociais. Por exemplo, neste vídeo, Sávio faz uma crítica à manchete "O Brasil é o país que mais mata travestis no mundo", resultado de uma pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Trans. Ele diz que não há como saber se esse dado é verdadeiro porque poucos países fazem o levantamento dessas mortes. Segundo essa lógica, toda pesquisa comparativa internacional deve cobrir todos os países para afirmar que o "Brasil é o pais que mais...qualquer coisa". No entanto, a pesquisa científica não é assim, desde que se demonstre a metodologia utilizada. Com ares de denúncia, Sávio complementa que o levantamento desses dados ocorre através de notícias, fato que impede a conferência com a realidade. O tom de denúncia indica que a ANTRA omite essa informação, mas basta ir na pesquisa para ver que a metodologia está lá devidamente explicada. Esse é o modo operante que o fez ter fama enganando pessoas desavisadas.


A falta de bom senso do Karnal

A edição do jornal O Estado de S. Paulo deste domingo publicou um texto no qual o filósofo pede licença para trazer de volta a convivência dos anos 60, momento em que ele podia apelidar duas vizinhas de 'Rosana palito' e 'Rosana Baleia'. Dentre outros exemplos, justifica que os novos termos, como plus size, são eufemismos à serviço de uma mesma ofensa: chamar o outro de gordo. Karnal chega a citar que isso é uma sublimação freudiana [sic]. No entanto, o que lhe falta mesmo é ler a diferença entre enunciação e enunciado proposto por Lacan. O discurso pode ter a palavra que for, inclusive a comumente ofensiva, mas o que se lê é a enunciação. Esta inclui alguns marcadores de identidade, é verdade, mas estão regidas sobretudo pela intenção. A comunidade LGBTQI+ se chama de viado há muito tempo; o carioca usa viado igual vírgula, e ainda não vi ninguém preso por homofobia ao dizê-lo; a depender do tom (enunciação), já está mais que naturalizado referir-se à população negra como preto; muitas pessoas referem a si mesmas como gordas. O problema não é a palavra, mas a intenção. Quando Leandro chamou a vizinha de baleia, ele próprio afirma sua negligência com a diversidade ao dizer que nunca perguntou se isso a ofendia. Por isso, trata-se de um reacionarismo que deseja apenas uma licença para ofender. Infelizmente seu texto está apenas na versão impressa do jornal, mas deve entrar no site em breve.


Clube de leitura gratuito

Nosso próximo ciclo do clube de leitura já tem um livro definido: Oração para desaparecer, da Socorro Acioli. Será um encontro único para conversarmos nossos atravessamentos com o livro. Sábado, dia 25/04, às 9h. Para entrar no grupo, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/Fzf1aMRSc9E8bmYwBK4PeG


Nova temporada de 'A última sessão de Freud'

Velha conhecida na comunidade psicanalítica, a peça de teatro que dramatiza o livro homônimo começa sua 8ª temporada em São Paulo. Trata-se de uma adaptação escrita por C. S. Lewis, o mesmo escritor das Crônicas de Nárnia. O livro também foi adaptado para o cinema, estrelado por Anthony Hopkins no papel de Freud. Fiz uma checagem de fatos desse filme num vídeo para youtube. Veja clincando aqui.


Crítica a Douglas Barros e Vladimir Safatle aqui

Vídeo sobre IA nos estudos em psicanálise aqui



 
 
 

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