Pensamentos arbítrios #6
- 28 de mar.
- 4 min de leitura
Res piro
Nas últimas semanas, deixei de escrever alguns pensamentos no momento que gostaria. Estive mobilizado no CRAS onde trabalho por conta das chuvas que atingiram a região, além de precisar me preparar para a participação em dois programas sobre psicanálise. No psicanálise e vinho, da Gabi, falei sobre a situação da psicanálise na França. Já no Acorde - Música e psicanálise, me juntei ao Rafael e ao Ricardo para analisarmos a letra de sapato 36, do Raul Seixas. Falei sobre minha história com as músicas do Raul e sobre o movimento de alienação e separação. As duas participações devem ir ao ar no mês de abril.
Psicanalista nas redes sociais
O segundo episódio do podcast da Tati Bernardi convidou Vladimir Safatle para pensar a relação do intelectual, incluindo o psicanalista, com o dinheiro e a exposição pública. Tati é uma entusiasta dessa discussão e já conversou com Vera Iaconelli e Dunker sobre isso aqui. O Dunker também dedicou um vídeo sobre isso aqui.
Para além do princípio da privacidade
Tentarei falar do que ainda não falaram. A definição do que é público implica aquilo que pode ser aberto a todos; já o privado, restrito a poucos; e o íntimo, é profundamente pessoal. No entanto, não existe uma lista do que constitui o conteúdo de cada uma dessas categorias. Isso porque suas designações não são pré-estabelecidas. A classificação do discurso enquanto público, privado ou íntimo não se determina pelo conteúdo nem pela forma, mas pela relação do sujeito com aquilo que é encadeado a partir de sua história.
Por exemplo, o que faz com que um relato do passe de fim de análise seja admissível como exposição pública daquilo que era íntimo?
O que se convencionou chamar de relato distanciado de seu próprio caso clínico não me parece contemplar totalmente a questão. Convém ir além para dizer que não se trata do estilo literário de um narrador observador, em terceira pessoa, tampouco de um tempo verbal passado, mas da relação que o sujeito estabelece com o conteúdo que torna público. Trata-se de da assunção de um novo lugar: histeriador de si.
Talvez por isso que, ao lermos Vera Iaconeli, Pierre Rey, Betty Milan e cia, não as percebemos com a estranheza de uma exposição íntima, porque não está mais em cena um segredo e sim uma elaboração de um lugar em que o histeriador não se identifica mais. Desta forma, o relato toma outro estatuto senão o da exposição íntima, para assumir a sua condição de saber-fazer com o efeito de análise.
Vejamos o outro lado, aquilo que nos chega com a estranheza da intimidade e que não está no discurso analítico. A própria Tati nos serve como exemplo ao relatar sua intimidade pela via da identificação com os casos que comenta em seus quadros, noutras vezes relata uma não-elaboração de uma questão de análise que falou na sessão passada. Isso é inegavelmente íntimo, não pelo conteúdo nem pela forma, repito, mas por uma correspondência que atesta outra relação que não a de histeriador de si. Aqui a exposição toma outro estatuto, de servir como possível parte da própria elaboração de análise e não como seu efeito. Aliás, por isso não se pode confundir o direito à privacidade com o dever da privacidade, sob o risco de uma vigilância moralista sobre quem escolhe se expor nas duas condições. Na sociedade dos discursos, há lugar para ambos, sem hierarquia.
A propaganda pesada do ensino a distância
Na edição da Folha de SP do dia de ontem (26/03), a modalidade de ensino a distância ganhou uma generosa edição especial de quatro folhas no jornal impresso. O título do primeiro artigo dá o tom da conciliação editorial com o setor: Marco de EAD tem "decisões equivocadas" aponta Abed. A sigla parece dar o peso de uma autoridade honesta do assunto, mas trata-se da Associação Brasileira de Educação a Distância, que defende a possibilidade de licenciaturas totalmente online, e que vê na obrigatoriedade do presencial para enfermagem um risco de falta de profissionais. É urgente que os governos federal e estadual assumam suas responsabilidades na abertura de novas universidades e novas vagas pelo Brasil!
A contradição da Folha na prática
A entrevista do Sérgio Dávila ao Amado Mundo no dia 24 foi intrigante. O diretor de redação da Folha relembrou sua experiência na cobertura do 11 de setembro, num relato profundo e incrível. O restante da entrevista, no entanto, repete a lógica da mídia hegemônica: o limite da liberdade de expressão é a lei e não a ética. Por isso, segundo o diretor, textos que defendem "racismo reverso" continuarão a ser publicados no jornal. Pior, seu papel como aparelho ideológico da classe dominante não passará por um segundo de reflexão. O ponto mais intrigante da entrevista foi a característica editorial da Folha prezar pela opinião dos dois lados. Isso soa imparcial, mas a prática é outra. Aparentemente isso não vale, por exemplo, para o setor de ensino EAD. Sem dois lados nesse caso.



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