Freud e Lacan petistas?

Passada a brincadeira de criar imagens de Freud e Lacan com boné e camisa do PT, é hora de deixar o anacronismo de lado para entender que essa dedução encontra pouco lastro na biografia e na história do movimento psicanalítico. Essa advertência se impõe para percebermos que uma psicanálise localizada politicamente na defesa de minorias é uma conquista recente e frágil. Trata-se de uma condição que só se sustenta a partir de uma formação política que se desdobra em um pleno e claro exercício na pólis.
Há inúmeras formas de exercitar a formação política na pólis e a maioria dos psicanalistas que acompanho são inspiradores nesse quesito. No entanto, um tensionamento a mais pode restituir ao debate a sua devida complexidade. Por exemplo, percebe-se a necessidade de um posicionamento mais firme e decidido quando se vê algumas notas das escolas de psicanálise a) fazendo uma defesa superficial de palavras assimiladas pela extrema direita; e b) apostando que a teoria psicanalítica, por si só, dê conta de formar psicanalistas antifacistas e, quiçá, em defesa de minorias.
Diferente das notas da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, da APOLa e do Fórum do Campo Lacaniano de Juiz de Fora, três das poucas instituições que vi um posicionamento inequívoco na nomeação da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, a ambuiguidade de jargões teóricos visto em outras escolas está longe de transmitir a compreensão sobre o que é 'democracia' ou 'ética da diferença'. Isso porque há aqueles psicanalistas, nem sempre de direita, que acreditam que o reformismo do sistema capitalista é suficiente para cessar mazelas estruturais; há aqueles que crêem piamente que a ética da diferença inclui uma cruzada contra as identidades de minorias sociais; ou crêem que a esquerda é quem produz ameaça, vide o medo de grupos consevadores com o fim da instituição familiar; também há aqueles que afirmam práticas segregacionistas na esquerda.

O comentário do Lucas na publicação do Corpo Freudiano RJ ilustra essa sensação de que a psicanálise ou a instituição não permite a inclusão daqueles que pensam diferente. Por isso, é importante perguntar quais as diferenças cada um dos psicanalistas de cada escola estão dispostos a conviver.
Toda palavra precisa de uma cadeia de significantes para diminuir o esvaziamento que, sozinhas, não dizem a que vêm. Logo, se afirmar psicanalista de direita ou esquerda, bem como defender a democracia e a ética da diferença, nos convoca falar mais e mais sobre qual democracia e quais diferenças estão em jogo. Não com o objetivo de chegar a uma verdade última, mas para que o reconhecimento da diferença não caia no relativismo pernicioso de admitir discursos que reproduzem fascismo e mortes indiretas de minorias sociais.
O debate fica ainda mais turvo se considerarmos as divergências teóricas e políticas dentro do próprio rol de psicanalistas de esquerda. Por exemplo, há aqueles que estão empenhados em questionar as identidades como se eles próprios estivessem fora desta dinâmica após o fim de análise. Há aqueles que defendem a vinculação do ordenamento biológico às categorias de homem/mulher, muitas vezes valendo-se do materialismo. Curiosamente duas lógicas potencialmente transfóbicas. Discutirei isso em breve.
Voltemos a Freud. Mesmo que ele tenha vivido uma Viena Vermelha e mesmo que tenha subido ao palco do congresso de Budapeste para defender uma psicanálise gratuita oferecida pelo Estado, conforme mostro neste vídeo, os registros biográficos são claros. Sigo as palavras da criticável Roudinesco ao afirmar que Freud era um "conservador esclarecido". Ademais, a legítima ausência de uma cosmovisão (Weltanschauung) na clínica encontrava limites no método psicanalítico. Na clínica, Freud era categórico na defesa do que chamou de individualidade do paciente, de forma que influenciar uma cosmovisão ao paciente seria violento. A aplicação do método psicanalítico em análises extra-clínica, no entanto, poderia servir tanto para a defesa como para o ataque de uma determinada cosmovisão, como ele deixa claro no Futuro de uma Ilusão.
Se a aplicação do método psicanalítico proporcionar um novo argumento contra o teor de verdade da religião, tant pis [tanto pior] para a religião; mas os defensores desta poderão, com o mesmo direito, utilizar-se da psicanálise para apreciar plenamente a importância da doutrina religiosa (Freud, 1927/2014, p. 222).
Não apenas no escopo da política, isso significa que a psicanálise está em uma disputa ideológica, como defende Althusser, e seu aparato sempre correrá o risco de ser apropriado pela burguesia, pela religião, pela ciência hegemônica, pelo capitalismo. etc., conforme já vemos acontecer no Brasil. Por isto, tenho muitas ressalvas às leituras de que a teoria psicanalítica, por si só, levará seu praticante a uma Weltanschauung que respeita as diferenças, tampouco que a lógica não-toda o retire de discursos hegemônicos. A história do movimento psicanalítico mostra justamente o contrário. Vimos uma política de salvamento da psicanálise com concessões ao nazismo, e vimos as escolas de psicanálise serem condescendentes com a ditadura civil-militar brasileira, conforme fundamento melhor nesta aula.
Lacan, por sua vez, votou no anticomunista Charles De Gaulle em 1965 e, no ano seguinte, recebeu um grupo de estudantes de filosofia com a seguinte pergunta:
Qual é a relação entre o sujeito de uma práxis revolucionária que visa a superação de seu trabalho alienado e o sujeito do desejo alienado? Qual é, a seu ver, a teoria da linguagem implicada no marxismo?
Ele inicia a resposta ressaltando que a psicanálise não tem o menor direito de interpretar a prática revolucionária dos marxistas. Para não fugir da pergunta, no entanto, defende que esse tal sujeito do trabalho alienado dá notícias em sua teoria, na afirmação de que o desejo é o desejo do Outro. Ele acrescenta que há uma divisão na fantasia do sujeito que vem a ser tamponada por um objeto - tendo no horizonte o seu objeto a - para falar o seguinte: isso está apontado no Marx como objeto-fetiche.
No entanto, Lacan coloca em questão o Materialismo Histórico Dialético ressaltando que questioná-lo faria bem aos próprios marxistas. Ele interroga uma suposta pretensão acerca do estatuto da verdade no MHD, isto é, Lacan questiona qualquer método que exclui o não saber e coloca sua causa em nome da verdade, como afirma ser no MHD. Desta forma, destitui uma pretensão de verdade para defender, isto sim, a verdade como causa. Essa subversão é uma proposta para que o MHD admita em seu arcabouço a impossibilidade de encontrar uma verdade última sobre as coisas a partir de seu método. Aqui partiríamos para sua crítica ao cientificismo, assunto também explorado em aula.
Retornando à brincadeira de um Lacan com boné do PT, temos uma afirmação reveladora. O mínimo que se pode esperar da teoria do significante é que ela seja materialista e ressalta: cabe a vocês a opção de atribuir essa fala a um comunista ou a um Pecuchê. Esse é um personagem do Flaubert que vem deflagrar uma insuficiência que, no caso, é a insuficiência do método materialista histórico dialético. Curiosamente, essa recomendação não é antinômica. Podemos seguir ambas.
Dois anos depois, aliás, apoiou a greve sindical em Maio de 68, instando os psicanalistas a fazer o mesmo, conforme afirma Alain Vanier. Ainda que tenha feito esses acenos a esquerda, Lacan estava longe de ser definido com tal, conforme registra Pavón-Cuellar.
Fato é que não precisamos impor delírios ao arquivo histórico imaginando Freud e Lacan petistas. Nosso compromisso é teórico e não personalístico. Isso nos permite defender uma psicanálise virulenta aos problemas dos discursos hegemônicos - como os da religião, classe, raça e gênero e do sistema econômico - sem precisarmos assimilar a biografia política de ambos. Precisamos de psicanalistas vivos e cada vez mais atentos ao tripé da formação psicanalítica, e por que não torná-lo um quadripé que passe a incluir a urgente formação política que evitaria os resquícios dessa velha neutralidade?



Comentários